jeudi, mai 29, 2008

Sometimes we depend on other people as a mirror, to define us and tell us who we are. And each reflection makes me like myself a little more.

Dia desses assisti ao novo filme de Wong Kar Wai, o My blueberry nights. A história não é das mais inovadoras (Elizabeth sofre uma desilusão amorosa e decide viajar pelos Estados Unidos, conhecendo pessoas durante o percurso) e, embora a fotografia seja belíssima e os diálogos cheios de significado, achei o resultado um pouco superficial. Sei que não sou crítica de cinema nem coisa parecida, mas nesse caso falo com conhecimento de causa. E explico: depois de morar cinco meses fora do país, guardo incontáveis histórias de pessoas que cruzaram o meu caminho, enquanto a mocinha do filme passa um ano e meio longe de casa e volta com apenas três delas na bagagem.

Saí da sala de exibição desejando que o filme fosse mais longo, imaginando conversas, segredos, rostos. E aos poucos fui me lembrando de todos que conheci Europa adentro, fiquei até emocionada, como se tivesse tirado tesouros de um baú que esteve fechado por muito tempo. Lembrei da artista de rua que pagava o albergue com moedas, da americana que me hospedou em Florença e acordava bem cedo pra correr, da portuguesa que, às vésperas de se mudar para o Brasil, havia encontrado o amor, da chef inglesa que morava num barco, da alemã que não disse adeus mas me escreveu um bilhete e da banda de rock que me deu um cd de presente, do colega de sala que queria ser presidente.

Esqueci o nome do holandês que morava numa casa invadida em Barcelona, mas sempre me lembro de Carmen, a espanhola mais querida do mundo, que sentou do meu lado no avião, fez sumir o meu desassossego e me abraçou apertado quando desembarcamos. Foi assim, lembrando, que percebi que por mais que o tempo passe e alguns detalhes se percam na memória, cada uma dessas pessoas já deixou um pouco de si comigo, me transformou. E juntas me ensinaram que, embora haja tanto desencontro na vida, ela é, mesmo, a arte do encontro.


manuela ~ 8:37:41 PM



dimanche, mai 11, 2008

clouds in my coffee

Quando fui me dar conta, já havia passado a faixa de pedestres, já havia atravessado o sinal vermelho. Chovia, eu estava com pressa e atrasada para o trabalho, o freio não conseguiu parar o carro e eu deslizei pela pista, vendo tudo em câmera lenta. Ilesa, mas desolada, engatei a ré e voltei a parar antes da faixa, antes do sinal - quando o que eu queria mesmo era voltar no tempo. Os vizinhos do carro ao lado me diziam que eu devia ter seguido em frente, que o radar tinha registrado tudo, eu só pensava que não havia mais remédio.

Depois de me acalmar, decidi que assim não podia continuar, estava na hora de entrar nos eixos. Faz quase uma semana que a sensação de 'era tudo bom demais pra ser verdade' me dói a cabeça e aperta o peito e eu ando sem rumo, sem porto, sem conseguir pensar em outra coisa. Esqueci de mandar o cappuccino que o hóspede pediu para o quarto e por sorte ninguém reclamou, deixei o celular no carro e telefonei para o escritório querendo saber se ele estava lá, saí para alugar um dvd e cheguei em casa de mãos abanando, ouço 'Ando meio desligado' na rádio do hotel e nunca me identifiquei tanto.

Só faltava isso, esquecer de frear quando devo - e esquecer a cabeça, minha mãe sempre diz. Porque também não consigo mais lembrar de como é acordar e me sentir a garota mais sortuda do mundo, não lembro mais de como é ter certeza de que tudo vai acabar bem. E nem o avelã dos chocolates que ganhei de presente mudou isso, nem assistir aos primeiros episódios de Gilmore Girls embaixo do cobertor ou calçar a sapatilha azul marinho. Mas ainda espero que esse bicho, essa coisa que me parte, já que não pode ser vontade de morrer, que seja uma bela d'uma obra de arte.


manuela ~ 6:28:22 PM





manuela.
aqui, ali ou acolá.
é uma moça de palavras grandes, de pequenos detalhes, de um amor que transborda. realiza sonhos, acredita em finais felizes e gosta de ter histórias pra contar. é toda coração.



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