mercredi, juillet 23, 2008



life in technicolor

As pessoas só observam as cores do dia no começo e no fim, mas, para mim, está muito claro que o dia se funde através de uma multidão de matizes e entonações, a cada momento que passa. Uma só hora pode consistir em milhares de cores diferentes. Amarelos céreos, azuis borrifados de nuvens. Escuridões enevoadas. No meu ramo de atividade, faço questão de notá-los.
(A menina que roubava livros, Markus Zusak)

Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que eu não sei o nome. Cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo, cores. Ando de olhos abertos e atentos a tudo que me rodeia, suas infinitas tonalidades e nuances. E assim, atenta, meu coração se encheu de carinho ao reparar o colorido da minha festa de aniversário, cheia de amigos e sorrisos, verdes-cetim e azuis-nuvem, brancos luminosos e vermelhos sonoros.

Ainda no começo do mês minha mãe resolveu colocar frutas para os passarinhos da vizinhança e eles se tornaram uma visita constante, vêm com suas asinhas misturadas de amarelo e branco e até se aventuram pela cozinha, vezenquando. Enchem o meu dia-a-dia de poesia e me fazem esquecer que é inverno lá fora e o céu não parece mais ter sido lavado a mão: é um cobertor cinza chumbo molhado, balançando ao sabor do vento.

Se a chuva dá uma trégua, saio de casa e só volto em plena madrugada, o salto fazendo toc toc no asfalto preto, os olhos do porteiro acordam ainda escuros de sono. Penso que tudo tem uma tonalidade enegrecida a essa hora do dia, ao contrário de pouco antes, quando os botecos, restaurantes e casas de amigos se enchem de vozes e rostos, num mil cores que encanta, confunde e me deixa sem saber para onde olhar.

Mas os tons por aqui não desbotam nem quando o céu desaba. Em dias assim eu não ponho os pés pra fora, mas convido a felicidade para entrar, e ela vem, com seu amarelo-verão. Assisto à patinação artística na tv, devoro chocolates com avelã e danço pela casa, vendo a cor da parede se transformar num borrão. Vivo um amor de cinema e quando estamos juntos meu mundo ganha tons de um vermelho berrante, avassalador.

Dia desses era domingo, tive que trabalhar oito horas numa sala fechada e o tempo tinha tudo pra passar em preto e branco. Mas abri um livro novo e as palavras eram tão bonitas que a tarde ficou furta-cor. E assim a vida ensina que nada é tão ruim ou sem cor quanto parece, às vezes só é preciso olhar por outro ângulo.


manuela ~ 10:31:53 PM



mercredi, juin 25, 2008



nessa data tão querida

No decorrer da história, 24 de junho foi um dia em que batalhas começaram e terminaram, territórios foram descobertos e reis, coroados, dia em que discos voadores foram avistados no céu. A primeira exposição de Picasso aconteceu nesse dia, em 1901, e o mundo chorou a morte de Gardel ao som de um tango, em 1935. No Egito o dia 24 é de comemoração do Dia das Lanternas e por aqui, de São João, dia de reza e de arrasta-pé, licor, fogueira e balão.

Minha mãe conta que 24 de junho de 1984 foi um dia frio de inverno, com agitação por causa das festas e da criançada soltando fogos na vizinhança. Ela diz que teve que sair às pressas pro hospital porque eu resolvi nascer quase em plena madrugada, às onze e cinquenta e quatro daquela noite. Nove meses antes um rascunho de mim burlou a ligação de trompas que o médico havia feito e nove meses depois eu nascia, com nome inspirado em uma música de Julio Iglesias.

Ontem - 24 anos depois e também dia 24 - fez sol e eu usei vestido florido, comi waffle com Nutella e recebi um milhão de telefonemas. No dia anterior tive que trabalhar, mas ganhei presente e bolo com cereja dos colegas e hoje chegaram mensagens de parabéns atrasadas, culpa de um celular que não funciona quando deve. Dia desses soube que este é o meu golden birthday, o aniversário em que a data e a quantidade de anos completados são as mesmas, coisa que acontece uma única vez em toda a vida.

Fiquei encantada com a descoberta e me animei para comemorar como há muito não fazia, até colori meu nome na lista de aniversariantes do mês da empresa e fiz convite eletrônico pra festinha do dia 28. E mesmo que o dia 24 já tenha passado decidi continuar a viver assim, fazendo cada dia especial feito dia de aniversário - quero a vida com gosto de brigadeiro e clima de festa e não acredito em inferno astral. Acredito sim que quando a gente quer muito alguma coisa as estrelas se alinham e o universo conspira. Então que assim seja.


manuela ~ 10:51:07 PM



samedi, juin 14, 2008

singing in the rain

Mesmo depois de um dia cheio, de correr do trabalho para a consulta médica, correr para alcançar o ônibus e evitar alguns minutos de engarrafamento, cheguei em casa feliz. Talvez tenha sido porque cortei a franja e estava satisfeita com o resultado, tavez pelos olhares masculinos que recebi no caminho de volta, ou então por constatar que a chuva que me caía por dentro havia cessado por completo.

Junho já está quase na metade, mas desde o seu primeiro dia decidi que não queria mais saber de tempestades nem copos d'água e desabrochei, feito botão em flor. Corri para o supermercado e comprei esmalte Beijo e chocolate Alpino, para mudar o tom e acalmar o coração, fui em barzinho e tomei caipiroska de morango, a bolsa de festa não saiu mais da mão. Consegui pegar o finzinho do show de Beyoncé na tv e fui dormir dançando, passei toda a tarde numa doceria com brigadeiro crocante, segredos de estado e uma amiga pra toda a vida, li Simone de Beauvoir no original francês. E fofoquei depois de ler a coluna do jornal, levei minhas queridas 'a la' Sex and the City pra vibrar com Carrie no fim de semana de estréia, passei o melhor-dia-dos-namorados-de todos-os-tempos num restaurante estilosíssimo e cheguei à conclusão de que mesmo que o tempo passe, há certas coisas que teimam em ser eternas, amém.

Hoje é 14 e os próximos quinze dias prometem ser tão agitados quanto os primeiros. Junho também é mês de aniversário e, além dos lembretes do tipo 'baixar o novo cd do Coldplay' e 'sair com Naty pra papear', ainda existem os 'terminar a lista de convidados' e 'decidir onde comemorar'. Espalho post-its pelos quatro cantos do mundo e não me queixo, é essa agitação que nos afasta de nuvens escuras, de invernos que crescem por dentro. Porque das frentes frias e tempestades de verdade eu não tenho medo - para estas, basta abrir o guarda-chuva.


manuela ~ 7:18:59 PM



jeudi, mai 29, 2008

Sometimes we depend on other people as a mirror, to define us and tell us who we are. And each reflection makes me like myself a little more.

Dia desses assisti ao novo filme de Wong Kar Wai, o My blueberry nights. A história não é das mais inovadoras (Elizabeth sofre uma desilusão amorosa e decide viajar pelos Estados Unidos, conhecendo pessoas durante o percurso) e, embora a fotografia seja belíssima e os diálogos cheios de significado, achei o resultado um pouco superficial. Sei que não sou crítica de cinema nem coisa parecida, mas nesse caso falo com conhecimento de causa. E explico: depois de morar cinco meses fora do país, guardo incontáveis histórias de pessoas que cruzaram o meu caminho, enquanto a mocinha do filme passa um ano e meio longe de casa e volta com apenas três delas na bagagem.

Saí da sala de exibição desejando que o filme fosse mais longo, imaginando conversas, segredos, rostos. E aos poucos fui me lembrando de todos que conheci Europa adentro, fiquei até emocionada, como se tivesse tirado tesouros de um baú que esteve fechado por muito tempo. Lembrei da artista de rua que pagava o albergue com moedas, da americana que me hospedou em Florença e acordava bem cedo pra correr, da portuguesa que, às vésperas de se mudar para o Brasil, havia encontrado o amor, da chef inglesa que morava num barco, da alemã que não disse adeus mas me escreveu um bilhete e da banda de rock que me deu um cd de presente, do colega de sala que queria ser presidente.

Esqueci o nome do holandês que morava numa casa invadida em Barcelona, mas sempre me lembro de Carmen, a espanhola mais querida do mundo, que sentou do meu lado no avião, fez sumir o meu desassossego e me abraçou apertado quando desembarcamos. Foi assim, lembrando, que percebi que por mais que o tempo passe e alguns detalhes se percam na memória, cada uma dessas pessoas já deixou um pouco de si comigo, me transformou. E juntas me ensinaram que, embora haja tanto desencontro na vida, ela é, mesmo, a arte do encontro.


manuela ~ 8:37:41 PM



dimanche, mai 11, 2008

clouds in my coffee

Quando fui me dar conta, já havia passado a faixa de pedestres, já havia atravessado o sinal vermelho. Chovia, eu estava com pressa e atrasada para o trabalho, o freio não conseguiu parar o carro e eu deslizei pela pista, vendo tudo em câmera lenta. Ilesa, mas desolada, engatei a ré e voltei a parar antes da faixa, antes do sinal - quando o que eu queria mesmo era voltar no tempo. Os vizinhos do carro ao lado me diziam que eu devia ter seguido em frente, que o radar tinha registrado tudo, eu só pensava que não havia mais remédio.

Depois de me acalmar, decidi que assim não podia continuar, estava na hora de entrar nos eixos. Faz quase uma semana que a sensação de 'era tudo bom demais pra ser verdade' me dói a cabeça e aperta o peito e eu ando sem rumo, sem porto, sem conseguir pensar em outra coisa. Esqueci de mandar o cappuccino que o hóspede pediu para o quarto e por sorte ninguém reclamou, deixei o celular no carro e telefonei para o escritório querendo saber se ele estava lá, saí para alugar um dvd e cheguei em casa de mãos abanando, ouço 'Ando meio desligado' na rádio do hotel e nunca me identifiquei tanto.

Só faltava isso, esquecer de frear quando devo - e esquecer a cabeça, minha mãe sempre diz. Porque também não consigo mais lembrar de como é acordar e me sentir a garota mais sortuda do mundo, não lembro mais de como é ter certeza de que tudo vai acabar bem. E nem o avelã dos chocolates que ganhei de presente mudou isso, nem assistir aos primeiros episódios de Gilmore Girls embaixo do cobertor ou calçar a sapatilha azul marinho. Mas ainda espero que esse bicho, essa coisa que me parte, já que não pode ser vontade de morrer, que seja uma bela d'uma obra de arte.


manuela ~ 6:28:22 PM





manuela.
aqui, ali ou acolá.
é uma moça de palavras grandes, de pequenos detalhes, de um amor que transborda. realiza sonhos, acredita em finais felizes e gosta de ter histórias pra contar. é toda coração.



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